Perder, nem a feijões

A preparação para o mundial foi «muito dura». Tomaz Morais recorda «cinco meses de treino intenso, em que praticamente não houve espaço para mais nada na vida das 45 pessoas que estiveram no mundial. A equipa era essencialmente amadora mas os jogadores passaram rapidamente de amadores ou semi-profissionais a profissionais, libertando-se dos seus empregos e afazeres estudantis», explica. «Houve uma mudança radical para minimizarmos o impacto de irmos jogar com as melhores equipas do mundo. A preparação foi muito boa e começamos a acreditar que podíamos fazer um mundial digno. O espírito do próprio campeonato fez com que a equipa se superasse.»

Sempre foi muito competitivo, desde miúdo. «Nunca jogava loto sem ser a dinheiro porque nunca consegui brincar a feijões. Tinha que ter sempre um objectivo. Aprendi a ganhar e a apreciar o valor da vitória, a alegria de fazer o trabalho bem feito.» Mas encara as derrotas com naturalidade. «Não gosto de perder, mas também não dramatizo. Mexe comigo e não consigo ficar com a mesma cara nem bem disposto depois de perder. Mas o grande campeão não é aquele que cai e fica deitado; é o que se levanta mais rápido do que a própria queda. E temos que perceber que na vida, se formos realistas e soubermos analisar bem as situações, há derrotas que são vitórias. Aquelas em que temos capacidade para ganhar e perdemos é que me deixam preocupado. As derrotas servem como momentos de reflexão e de viragem na vida. Quando perdemos criamos um medo no estômago e reagimos. Mas tenho o privilégio de ter ganho mais do que perdi.»

O invejável ‘curriculum’ de Tomaz Morais faz com que já tenha sido considerado o José Mourinho do rugby. Vê a comparação como motivo de orgulho, porque «acaba por ser um reconhecimento», mas considera-a mais «uma estratégia de comunicação», porque, «na prática, não são realidades comparáveis. Um gere milhões, outro gere tostões», ressalva. E defende que «há muitos exemplos de bons líderes portugueses que começaram do nada que o português comum não conhece nem reconhece».

No livro «Compromisso Nunca Desistir», que escreveu em 2006 e no qual afirmou que é difícil liderar equipas em Portugal, lamentava que esses bons exemplos não sejam seguidos nem acarinhados. «Damos sempre mais importância ao lado negativo. E somos muito individualistas. É algo cultural mas que aos poucos tem vindo a mudar. Quando peguei na Selecção Nacional, a mentalidade também era essa.» E é esse espírito que também tem tentado incutir nas empresas.

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