Recrutamento e critérios de selecção

Recrutamento – O primeiro segredo de uma equipa vencedora

Quem convoco para a selecção? Os jogadores que mostrem maior capacidade e disponibilidade para assumirem integralmente o compromisso de grupo. Alio este factor aos bons conhecimentos e às competências físicas, técnicas e tácticas, bem como à facilidade em resistir a momentos de pressão psicológica. É esta a filosofia que sustenta as minhas convocatórias. Uma lógica idêntica àquela que deve nortear os processos de recrutamento nas organizações em geral.

No desporto, como nos negócios, são as pessoas que fazem a diferença. São elas que acrescentam valor, atribuem dinâmica aos projectos e conferem sentido humano às organizações. As estratégias, só por si – reféns das novas tecnologias -, não são sinónimo de sucesso. Por mais brilhante e inovador que seja o caminho, as ideias não sobrevivem sem suporte humano. Dito de outra forma: uma estratégia clara, realista e ambiciosa é essencial, mas a sua concretização estará sempre dependente da capacidade dos recursos humanos. São as pessoas que cumprem as metas. Daí que o grande desafio dos líderes contemporâneos seja rodearem-se das pessoas certas, escolherem-nas no momento oportuno e colocarem-nas no local exacto. Tudo isto em nome de uma gestão eficiente dos recursos e da optimização dos resultados.

No primeiro ano, muitas pessoas ficaram escandalizadas com o lote de convocados. Ficaram de fora jogadores de grande talento que jamais pensavam que poderiam estar longe da selecção nacional. Porquê? Contrariamente ao que se possa pensar, não sou um inimigo do talento, mas defendo que o segredo passa por saber integrá-lo, colocando-o sempre ao serviço do colectivo.

Então, as qualidades técnicas de um jogador não são, só por si, sinónimo de mais-valia? Estou cada vez mais convicto que não. Prefiro apresentar um conjunto de características que privilegio na hora de escolher aqueles que quero ao meu lado. Num grupo onde experiência rima com irreverência, competência e empenho, procuro jogadores capazes de darem, cada um à sua maneira, o contributo para a criação dessa “atitude guerreira”. Intuitivos, inteligentes, criativos, conhecedores, disponíveis, ambiciosos, inovadores, comunicadores e responsáveis. Há de tudo na selecção nacional de rugby.

Recrutar não é fácil e só quando estamos algum tempo com as pessoas é que percebemos quem elas são. À primeira deixamo-nos impressionar, por vezes, pela sua qualidade técnica, outras vezes só pela sua fisionomia, mas só quando vêm os problemas, as convivências, a cumplicidade, a partilha... só aí é que vemos aqueles que para nós são os que nos interessam. Causa-me uma mágoa muito grande ter que deixar alguém de fora. Isso acontece talvez porque consigo ver coisas positivas em todas as pessoas: é uma qualidade que tenho e que me faz ganhar grandes apostas onde outros perderam, e formar jogadores que outros não conseguiram. Nunca jogo ninguém fora à primeira.

 No mundo actual, onde tudo acontece a um ritmo alucinante, tem-se cultivado a ideia do imediatismo. Isto é, até na hora de escolher as pessoas certas para desempenharem determinados papéis nas organizações, o “já” é palavra de ordem. Entendo perfeitamente as dificuldades com que, por exemplo, se deparam as empresas – sujeitas a um clima de concorrência cego – mas aconselho os líderes e as próprias estruturas a dedicarem mais tempo à selecção dos recursos humanos. Escolher a pessoa errada ou deixar fugir “aquele trunfo”, pode sair mais caro do que “perder” mais algumas horas com o processo de selecção e análise dos elementos contratáveis.

Perante a dificuldade em encontrar o “jogador perfeito” – aquele que associa as qualidades físicas, técnicas e tácticas, a todos os outros atributos que valorizo –, prefiro estar atento à mais-valia que sobressai em cada elemento, porque é precisamente na conjugação das diferenças que encontro a identidade desta equipa e, consequentemente, a sua força própria. Assim, todos sabem porque são verdadeiros “trunfos” num baralho que nunca se parte.

 

O jovem transforma o grupo

Quando recruto gosto de ter um misto de experiência e de juventude. Porque a experiência só ganha importância se tiver ao seu lado a irreverência. Os jovens trazem sempre muita vontade e vêm por em causa a acomodação das pessoas que estão aqui há mais tempo. Isso é importante. Um jovem transforma um grupo pela sua dinâmica e pela sua forma de estar. É por isso que costumo dizer que as minhas equipas começam nos 19 e depois não têm limites. A idade não deve ser um factor decisivo na hora de escolher. É um erro não apostar na juventude. Mas os jovens têm que perceber que é preciso arregaçar as mangas, dar duro, vencer obstáculos, contornar problemas e perceber que o mercado de trabalho e a vida social são muito exigentes.

Quem melhor que um jovem para incorporar a noção de risco permanente? Quem melhor que um jovem para estar disposto a crescer profissionalmente associado a um projecto aliciante? Quem melhor que um jovem para impor dinamismo e irreverência à organização? Tudo isso é verdade, mas em Portugal ainda existem algumas resistências quando chega a hora de apostar na juventude. A maior parte das empresas que abre as portas aos jovens, fá-lo, simplesmente, porque são recursos baratos. Há uma grande ignorância e até desprezo pelas reais potencialidades dos “miúdos”. O mais habitual é vê-los em lugares sem expressão e a realizarem tarefas onde não têm oportunidade para mostrarem o seu valor.

A renovação que imponho constantemente nas selecções nacionais reflecte a preocupação que tenho com o potencial de crescimento das minhas equipas. Isto é, apesar de ter consciência de que os treinadores de alta competição vivem dependentes da ditadura dos resultados imediatos, faço questão de pensar o projecto das selecções também a longo prazo. Daí a aposta na juventude, clara e sem preconceitos.

Formar para competir, formar para ganhar. Este é um dos lemas que sustenta a minha estratégia de recrutamento. Mas esta forma de perspectivar a construção de uma equipa de alto rendimento deve ser alargada, por exemplo, ao mundo empresarial. Quando um jovem é recebido na empresa precisa de sentir que alguém está disposto “a perder” muitas horas na sua formação. Sem querer que esta noção se confunda com uma espécie projecto maquiavélico, o líder deve moldar a “nova aquisição” aos valores da organização – o que vulgarmente denominamos de “ensinar a vestir a camisola”.

Não me importo de “perder” tempo a trabalhar os jovens que convoco, e aconselho as empresas a fazerem o mesmo – temos que lhes dar condições para que eles sintam que podem crescer juntamente com o projecto. Na realidade, os jovens de hoje já não se satisfazem com projectos minimalistas, onde sintam que a sua presença é entendida apenas como “mais uma” entre muitas. É preciso envolvê-los. Como? Através de dois movimentos quase simultâneos: capacitar e responsabilizar. Ou seja, à medida que se capacitam as pessoas, devem-lhes ser atribuídas novas responsabilidades? Para quê? Para que não haja quebras motivacionais. O jovem precisa de sentir que os detalhes que tem vindo a trabalhar justificam a crescente responsabilização com que tem sido brindado. Ao fim ao cabo, não é mais do que lhe dizer: “Continua. Estás a ver como está a valer a pena?”

Fonte: Retirado do Livro Compromisso: Nunca Desistir, de Tomaz Morais com a colaboração de Carlos Mendonça.
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