Definição de objectivos

Os perigos da ilusão

Quem começa por definir metas sem a certeza que tem meios para as concretizar, está no mau caminho. É por isto que não aceito que a estrada para o sucesso se construa a partir da definição de objectivos. Só depois de avaliados os recursos, planeada a macroestrutura, seleccionados os colaboradores e organizada a microestrutura, é que o líder tem uma noção exacta das reais possibilidades da sua equipa.

Quem inverte esta sequência tem o jogo viciado. Começar por definir objectivos e, posteriormente, erguer uma estrutura para alcançá-los, é meio caminho andado para a frustração geral. Porquê? Porque nesses casos as metas são definidas no ar e tudo soará a artificial: quer a avaliação das condições existentes, quer o planeamento, quer até o processo de recrutamento. Tudo isso estará, à priori, artificialmente condicionado pelos objectivos que já foram traçados. O líder deverá evitar cair nesta rede falsa, que não é mais do que cultivar a ilusão irresponsável de querer atingir certos objectivos simplesmente “porque sim”.

As metas que definimos têm que ser sempre ambiciosas, mas ao mesmo tempo adequadas e realistas, porque os objectivos são para serem concretizados e não para deixar morrer. Se preferimos ser megalómanos e traçar objectivos sabendo que - com os recursos de que dispomos - não podemos atingi-los, cairemos num vazio, fazendo com que as pessoas deixem de acreditar em nós e naquilo que, ao fim ao cabo, lhes prometemos. Abre-se então aqui um ciclo vicioso que pode potenciar um processo de ruptura dentro da organização. Ao ver as metas distantes o líder pede mais esforço e dedicação aos seus colaboradores, mas os objectivos continuam a parecer difíceis de alcançar. Perante este cenário, a equipa vai perdendo motivação à medida que lhe é pedida mais entrega. Os colaboradores começam a sentir que o que lhes foi pedido é uma missão impossível, tendo em conta os recursos que têm à sua disposição e, pior do que isso, começam a cultivar uma relação de desconfiança com quem os lançou naquela empreitada.

Alertar para este perigo não significa aceitar que o segredo esteja no mínimo denominador comum. Aliás, sou um dos grandes inimigos da velha lógica lusitana do “q.b” (quanto baste) e confesso que um dos seus maiores desafios é ajudar os atletas a superarem-se, quer nos treinos quer nos momentos da competição. Quero que os meus jogadores acreditem naquilo que lhes digo quando, olhos-nos-olhos, lhes transmito que vamos conseguir superar os objectivos traçados. Quando isso acontece, é hora de dar largas à alegria e voltar repensar outras metas. Às vezes não é preciso ir muito mais além, basta sermos capazes de estender no tempo a concretização de determinados objectivos. No entanto, gosto de deixar bem claro que devemos festejar sempre que alcançamos algo positivo nas nossas vidas – é um bom método de motivação se for utilizado como trampolim para a definição de novos desafios.

Na vida, nos negócios ou no desporto de alto rendimento, o que importa é atingir os objectivos e vencer. Ainda assim, é preciso não esquecer que esses mesmos objectivos podem ser fundamentais para empurrar uma equipa para a frente, mas os erros na sua definição ou abordagem prática podem trazer ao grupo prejuízos por vezes irreparáveis. Para limitar a probabilidade de isso acontecer, o líder deve assegurar que:

 

  • Sabe que tem reunidas as condições financeiras, físicas e humanas para atingir os objectivos definidos;
  • Diagnosticou todos os obstáculos que podem surgir durante o caminho e deu conhecimento disso à sua equipa;
  • Deixou claro qual a responsabilidade de cada elemento do grupo;
  • Explicou detalhadamente à equipa porque considera os objectivos realistas e como vão ser alcançados;
  • Reforçou a ideia de que nada se consegue sem trabalho, sem persistência e sem motivação;
  • Sublinhou que os objectivos colectivos devem prevalecer face às metas individuais, mas deixando claro que a valorização pessoal é uma “mais-valia” para o grupo;

 

 

Este último ponto merece um destaque especial, tal é a controvérsia que costuma gerar dentro das equipas. A guerra silenciosa entre os objectivos pessoais e os objectivos colectivos deve ser encarada de frente. A solução não passa por ignorar que cada pessoa tem ambições distintas, mas por explicar ao grupo que é possível conciliar estes dois campos aparentemente antagónicos.

Na hora de definir prioridades, não tenho dúvidas em afirmar que os objectivos colectivos devem prevalecer sobre as metas pessoais. As equipas não valem pelas suas estrelas, até porque essas só existem no céu e até aí estão agrupadas. Ainda assim, sei que a motivação dos elementos do grupo depende, também, da concretização dos objectivos individuais que orientam a acção de cada elemento.

Mas na tentativa de encontrar o tal método de convivência salutar entre os objectivos do grupo e as ambições pessoais, constrói-se uma relação quase “parasital”. Uma pessoa só consegue atingir objectivos individuais se a equipa estiver bem, se a estrutura à qual ela pertence for atingindo resultados positivos – se olham para nós. Caso a equipa não jogue bem, ninguém conseguirá valorizar-se. Costumo dizer aos meus jogadores que se quiserem aspirar a voos mais altos têm que sobressair, e isso só vai acontecer se a nossa equipa for falada. E como podemos andar na boca do mundo? Se funcionarmos sempre em bloco, nos bons e nos maus momentos. Se mesmo quando perdermos olharem para nós como um exemplo de quem cai com dignidade. A isto chamo união de balneário.

Em jeito de conclusão, acredito que a valorização individual depende do sucesso da equipa, mas esse êxito só será real se todos esquecerem por momentos o seu próprio umbigo. Para pintar esta ideia, recorro muitas vezes a um exemplo do mundo do futebol: até Maradona quando marcou o golo da sua vida não o fez sozinho, precisou da mão de Deus.

Fonte: Retirado do Livro Compromisso: Nunca Desistir, de Tomaz Morais com a colaboração de Carlos Mendonça.
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