Ka Mate, Ka Mate... vs a Portuguesa!

Dia 15-9-2007

O jogo contra  a Nova Zelândia no Mundial de França é uma das histórias que melhor comprova a ética, fair play e desportivismo. Num jogo com sentimento único para toda a estrutura da nossa seleção nacional e para o rugby em si, os melhores profissionais defrontavam pela primeira vez na história da modalidade os únicos amadores em competição... um dia especial a recordar para sempre! Nunca saberemos quando se voltará a repetir...

O nosso dia de trabalho começou com um ligeiro treino no parque de estacionamento do nosso hotel em Lyon, respirava-se um clima de grande positivismo e a ansiedade, natural de quem vai combater contra uma equipa que mais parece desumana dada a constituição e velocidade de execução dos seus jogadores. O nosso bom dia em grupo foi para o reconhecimento do privilégio de estarmos a viver o sonho de uma vida, fruto de um acreditar e crer fora do normal de um conjunto alargado de jogadores e outros agentes desportivos que deixaram tudo para trás e se empenharam sem limites até concretizarem este objectivo: apurarem-se para jogar a competição mais importante da modalidade e a terceira com maior impacto no desporto mundial. Depois desta primeira sintonia e respirar coletivo seguiu-se um reforço alimentar, sempre em comunhão, onde foram recordados a estratégia e principais objectivos coletivos para o jogo: perder por menos de 100, dar a impressão ao mundo que nos primeiros 20 minutos iniciais estaríamos a jogar de igual para igual, marcar primeiro e por último, o mais destemido mas mais saboroso: marcar 1 ENSAIO. Muita ambição mas na verdade só o primeiro não foi concretizado e por muito pouco... No balneário com a preciosa ajuda do capitão, um excelente líder pelo exemplo – Vasco Uva, estava recordado o compromisso entre todos: “aconteça o que acontecer em campo, enquanto houver oxigénio nos pulmões e sangue nas veias não vamos parar de lutar”. Esta foi sempre a atitude dos Lobos onde quer que jogassem, com humildade e um grande respeito por todos os que os ousassem desafiar. Com um mar de portugueses a fazer um cordão humano à medida que o autocarro se iam aproximando do estádio o silêncio dentro do seu interior era confrangedor, com a concentração ao máximo agora só nos interessava desfrutar do momento. Mais uma vez o hino nacional emocionou o estádio e deixou aos portugueses uma mensagem clara de sentido patriótico, alma e raça. Mas foi para a famosa saudação HAKA que as atenções se viraram logo de seguida, olhos nos olhos com os All Black os Lobos não cederam, a sua coragem era arrepiante, que momento, que desafio, que oportunidade! Como foi bom viver aquela oportunidade com jogadores de enorme qualidade humana que se entregaram por completo só por vestir e sentir a camisola nacional, sem mais nada em troca! Abraçados, perante os Neozelandeses e com os 15 elementos da equipa técnica apertados como nunca, ouvimos os gritos Ka mate, Ka mate... a entoar num estádio repleto de flashes fotográficos, em stress à espera dos primeiro pontos da equipa portuguesa. O jogo passou num ápice e apesar da derrota ficou o exemplo de fair play e da defesa dos valores desportivos para sempre bem testemunhado no cumprimento respeitoso dos neozelandeses, ao elogiarem a forma perfeita como os nossos quinze jogadores trabalharam em equipa para marcar o único ensaio, personificado no Rui Cordeiro. De seguida o convite para se deslocarem ao nosso balneário, de pronto aceite, para que pudéssemos beber uma cerveja e conhecermos os nossos heróis de forma mais próxima. Neste ato simbólico, mas de grande valor humano, todos os princípios éticos do rugby transbordaram na troca de camisolas, fotografias e autógrafos pedidos aos protagonistas mais carismáticos do rugby mundial. Surgiu aqui a grande surpresa, recusaram-se a assinar o que quer que fosse pois os autógrafos são apenas para os fãs e não para os colegas de profissão... não dá para esquecer tamanha atitude! Foi mesmo muito marcante, só de relembrar arrepia. Ao mesmo tempo no relvado, os suplentes e jogadores não convocados de ambas as seleções jogavam uma partida de futebol que só poderia ser ganha pelos Lobos.

Data: 12.02.15
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