Olhos nos olhos

Um dos mais pertinentes temas de gestão e eficaz funcionamento das equipas é a comunicação interna, pois evidencia um dos principais problemas de qualquer liderança: como comunicar de forma eficaz para um grupo que tem objectivos de excelência, em que todos dominam a sua função específica, revelam um talento fora do normal e naturalmente é composto por pessoas diferentes, com motivações distintas e necessidades díspares.

É, na realidade, possível comunicar de forma homogénea para um grupo, utilizando as características base do discurso motivacional: convicto, emotivo, assertivo, frontal e criativo – o chamado “discurso olhos-nos-olhos”. Sempre que falo para os meus jogadores digo-lhes aquilo que estou a sentir verdadeiramente, faço-o de forma simples e apaixonada. É ilusório pensar-se que esta “fórmula” responderá com a mesma eficácia às necessidades de todos os membros da equipa. A base do sistema de comunicação que defendo passa por uma óptima sistematização da mensagem, sustentada por 3 pilares: a transmissão da mensagem, a forma como operacionalizamos as nossas ideias e princípios e a estratégia a utilizar. Aqui existem 3 aspectos, igualmente importantes entre si, essenciais para que possamos garantir que a transmissão da mensagem se torne realmente eficaz. Aceitar e perceber que na equipa as pessoas são todas diferentes, por isso, utilizamos estilos diferentes (direcção, orientação e delegação). Utilizo um comportamento directivo, claramente de cima para baixo e deixando claro a hierarquia existente quando há pessoas que precisam que comunique dessa forma: por terem necessidade de sentir que o que digo é uma ordem, pois desta forma sentem-se orientados. Acredito e defendo, por natureza, um discurso e um relacionamento orientador. As conversas com os jogadores têm como principal objectivo relembrar-lhes as linhas de acção, encorajando-os. A delegação surge como sinónimo de envolvimento, partilha e responsabilização, as pessoas devem tentar descobrir as coisas por si.

O segundo aspecto que nunca se deve descurar é a pré disposição mental para mantermos uma “escuta activa”, todos gostam e precisam de se fazer ouvir nas equipas... Será que sou um bom ouvinte? Será que gosto de ouvir os outros? Será que tenho capacidade para escutá-los? Será que me preocupo realmente com aquilo que me dizem? Será que sou capaz de me mostrar interessado no que me estão a dizer? Este tipo de interrogações deviam nortear a acção de todos aqueles que gerem equipas diariamente. Faço questão de dar especial ênfase a este factor porque saber ouvir continua a ser uma das mais difíceis técnicas de comunicação. O tempo que destinamos para ouvir os outros é claramente inferior àquele que utilizamos para fazer valer as nossas ideias e impor os nossos pontos de vista. Tento estar atento aos problemas concretos daqueles com quem trabalho, e isso, só é possível se estiver disponível para ouvir aqueles que me rodeiam.

Por último, a correcção, uma possível e não desejada repreensão, tal como o elogio, não podem ser vistas como um fim. É óbvio que são abordagens de natureza diferente mas devem ser encaradas pelo treinador como instrumentos essenciais da gestão dos seus jogadores. Ninguém pode ter medo de utilizar o elogio como uma ferramenta motivacional, mas é preciso ter muito cuidado sobre os moldes em que se faz uma repreensão. Ambos devem estar sujeitos a regras claras: feitos no momento oportuno, de forma breve, específica e adequada ao estado emocional do jogador. Nesta linha, é fundamental que, quer o elogio quer a repreensão, sejam o produto de uma relação franca em que quem comanda tem um objectivo central: estimular o indivíduo. Não tenho dúvida que para conseguir ganhar, primeiro tenho que conseguir realmente comunicar!

Data: 25.06.08
Fonte: O Jogo
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