Final Campeonato da Europa

Agora que chegamos à melhor parte – a Final, e observando a qualidade das equipas e os níveis atingidos durante este Campeonato da Europa surgem-nos algumas questões: quais as componentes mais importantes a treinar antes e durante uma competição com esta especificidade? Será que podemos dissociar a questão física da questão técnica? É habitual ver as equipas técnicas no campo a trabalhar os índices motivacionais dos jogadores, ao mesmo tempo que os jogadores trabalham o físico. O mesmo se passa quando o grupo desenvolve movimentos tácticos ou aperfeiçoa determinadas questões técnicas. Sou dos que defende que primeiro temos que organizar a equipa dentro e fora do campo e só depois trabalhar os aspectos físicos, até porque não me canso de repetir que, na minha forma de entender a alta competição, o rendimento é mais mental e organizacional antes de ser físico. De qualquer forma jamais poderemos descurar esta qualidade nomeadamente nas fases que antecedem a competição e no desenvolvimento integral do jogador. Quando olhamos para os grandes jogadores com toda a facilidade percebemos da sua imensa força física baseada na capacidade para alternar ritmos e acima de tudo na capacidade explosiva e na velocidade de execução técnica que faz a diferença e surpreende. Associar estas capacidades a uma tomada de decisão eficiente e eficaz, é o trabalho a desenvolver por todos os treinadores a qualquer nível. Há quem tenha dificuldade em perceber como se trabalha o processo de tomada de decisão. Ou seja, como é que se prepara o jogador para que ele seja capaz de, em segundos – às vezes menos –, tomar a decisão acertada em benefício da equipa. O trabalho passa por escolher exercícios de critério do simples para o complexo, ou situações jogadas, em que o jogador é obrigado a tomar uma determinada opção no sentido de dar continuidade à acção que está a desenvolver. Acho importante colocar os jogadores sobre dificuldades extremas para que nos momentos de competição tomem as decisões acertadas. Estes pequenos exercícios ajudam o jogador a aprender a lidar com a pressão e a encarar a tomada decisão como um elemento natural. Decidir é uma acção que deve ser entendida como parte integrante do trabalho diário, ninguém pode ter medo de o fazer. A equipa que se acobarde na hora das decisões pode até ser capaz de cumprir objectivos elementares, mas nunca saberá as suas reais potencialidades. No jogo, tudo se passa a grande velocidade e cada vez há menos espaço e maior pressão. Logo, as decisões têm que ser tomadas também de forma rápida, não basta correr, não basta trabalhar muito, é preciso associar decisões inteligentes a tudo aquilo que os jogadores fazem. Há que ser capaz de sentir a equipa, observar o seu estado de espírito e perceber se, de facto, aquilo que se projectou se adequa às circunstâncias. É um erro ficar agarrado aos papéis e aceitar ser fanático de esquemas traçados ou princípios meramente metodológicos. As pessoas não são máquinas. É fundamental para a saúde da equipa ser capaz de mudar rapidamente o rumo que se traçou, e entender que há outra solução mais apropriada para concretizar o desígnio a que se propôs.

Por vezes, os treinos “cor-de-rosa” que aparecem nos livros não respondem às necessidades da equipa num determinado momento. Muitas vezes, essas sessões em que se enche o campo de material – construindo uma paisagem que mais parece os cenários dos jogos sem fronteiras – muitas vezes revelam-se pobres de conteúdo porque simplesmente o estado de espírito da equipa ou as suas reais necessidades naquele treino não se coaduna com esse tipo de metodologia. Uma só bola pode ser suficiente para realizar um treino de altíssimo nível, com riqueza de conteúdos, intervenções constantes e uma dinâmica de acção própria. Assim, conseguimos transmitir-lhes tudo o que tínhamos planeado, mas de forma diferente.

Há que saber aproveitar as qualidades individuais dos jogadores e criar um sistema perceptível e comum a todos. Mas, a avaliar pelos resultados das equipas que chegaram até aqui, podemos perceber que as estratégias escolhidas por cada Selecção foram apostas ganhas.

Data: 26.06.08
Fonte: O Jogo
Partilhar »